Costumava bater na porta da cozinha e assim que ela fosse aberta eu corria para pegar meu copo d’água. Sussurrava um “desculpa” muito mais baixo que o normal e muitas vezes com a voz já falha.

Trancavam a porta novamente e eu encarava a minha irmã um tanto preocupada sentada no sofá enquanto fingia estar interessada no filme que passava na televisão.

Bebia até o ultimo gole de água e colocava na porta da cozinha. Eles sempre souberam que eu tentava ouvir suas conversas.

Uma mão sempre pousava em meus ombros tentando me confortar e a necessidade de olhar para o lado não era mais a mesma, eu sabia que era minha irmã.

“-Você sabe que não é nada de mais.”

Gostaria de saber.

Falava sempre a mesma coisa com alguma tentativa de me acalmar. Nunca adiantaria. Acreditava que se você não tinha certeza de algo, você nunca iria conseguir transmitir essa falsa certeza para outra pessoa.

Nunca tive medo da minha irmã não me contar nada, afinal, nem ela sabia direito da história, os mínimos de detalhes eram divididos a noite enquanto as pessoas dormiam. A noite era especial pra gente.

A porta foi aberta e aqueles dois pares de olhos me encaravam com um pouco de pena. Ele deu um beijo em minha testa e saiu pela porta. Ela sorriu de lado e caminhou até seu quarto.

Eles achavam que não, mas eu sabia que aos poucos... Meus pais estavam se separando. 

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